Você tem cólicas cada vez mais fortes, sangramento menstrual volumoso e um útero que o ginecologista descreveu como "aumentado", mas o resultado ainda não aponta um mioma? Pode ser adenomiose: uma condição comum, ainda pouco conhecida pelas próprias pacientes, e que costuma ser confundida com endometriose e com mioma uterino, tanto pelos sintomas quanto pela linguagem do próprio laudo.
Neste artigo, a Dra. Ana Clara Campos explica o que é a adenomiose, por que ela é frequentemente confundida com outras duas condições uterinas e como o ultrassom especializado consegue diferenciar essas três situações com precisão.
O que é adenomiose?
Adenomiose é uma condição benigna em que tecido semelhante ao endométrio, o revestimento interno do útero, cresce dentro da parede muscular do útero (o miométrio), em vez de ficar restrito à cavidade uterina. Esse tecido deslocado continua respondendo aos hormônios do ciclo menstrual: espessa, sangra internamente e gera um processo inflamatório localizado dentro da própria parede uterina.
Com o tempo, esse ciclo repetido faz o miométrio reagir com espessamento e formação de pequenas áreas de fibrose, o que deixa o útero globalmente aumentado e com uma textura irregular, característica que a especialista consegue identificar ao ultrassom.
A adenomiose já foi chamada de "endometriose interna do útero", mas essa comparação, embora didática, pode confundir: são duas doenças distintas, com localização, comportamento e implicações diferentes para o tratamento.
Adenomiose, endometriose e mioma: por que a confusão é tão comum?
As três condições compartilham um sintoma central (a cólica menstrual intensa) e afetam a mesma região do corpo, o que leva muitas pacientes, e até profissionais que não têm formação específica em ultrassonografia ginecológica avançada, a usar os termos como sinônimos. Na prática, cada uma tem uma origem diferente:
- Mioma uterino: tumor benigno formado por células musculares do próprio útero, que cresce como um nódulo bem delimitado dentro, na parede ou na superfície externa do órgão.
- Endometriose: tecido semelhante ao endométrio que cresce fora do útero, em locais como ovários, peritônio, intestino e bexiga.
- Adenomiose: tecido semelhante ao endométrio que cresce dentro da parede muscular do próprio útero, sem formar um nódulo bem delimitado.
Para entender a endometriose em detalhe, incluindo por que o diagnóstico costuma demorar, vale a leitura do artigo O que é endometriose e por que o diagnóstico demora tanto.
Quais são os sintomas da adenomiose?
Nem toda mulher com adenomiose apresenta sintomas, mas quando eles aparecem, os mais comuns são:
- Dismenorreia progressiva: cólica menstrual que piora com o passar dos anos, muitas vezes a partir dos 35 a 40 anos
- Sangramento menstrual intenso e prolongado (menorragia), às vezes com coágulos
- Dor pélvica crônica, presente também fora do período menstrual em casos mais extensos
- Sensação de peso ou distensão abdominal baixa, relacionada ao aumento do volume uterino
- Dispareunia, dor durante a relação sexual, em alguns casos
- Dificuldade para engravidar em casos de adenomiose mais extensa, embora esse não seja o cenário mais comum
Como esses sintomas se sobrepõem aos de endometriose e mioma, a queixa isolada não permite diferenciar as condições. É aí que entra o papel do exame de imagem.
Como o ultrassom diferencia adenomiose, endometriose e mioma
O ultrassom transvaginal, realizado por especialista treinado, é hoje a principal ferramenta de imagem para diferenciar essas três condições em uma única avaliação, observando características bem distintas em cada uma:
| Característica ao ultrassom | Adenomiose | Mioma uterino | Endometriose |
|---|---|---|---|
| Localização do tecido | Dentro da parede muscular (miométrio) | Nódulo dentro, na parede ou na superfície do útero | Fora do útero (ovários, peritônio, intestino, bexiga) |
| Contorno da lesão | Difuso, sem limites bem definidos | Bem delimitado, arredondado | Varia: cistos ovarianos ou nódulos infiltrativos |
| Formato do útero | Globoso, aumentado de forma simétrica | Pode estar deformado por nódulo localizado | Geralmente preservado, salvo aderências |
| Textura miometrial | Heterogênea, com pequenos cistos miometriais | Nódulo sólido, geralmente hipoecoico | Miométrio costuma ser normal |
| Exame de referência | Ultrassom transvaginal especializado | Ultrassom transvaginal ou abdominal | Ultrassom com preparo intestinal |
Achados característicos de adenomiose ao ultrassom
Além do útero globoso, a especialista procura sinais específicos que aumentam a confiança diagnóstica, entre eles:
- Assimetria entre as paredes anterior e posterior do útero, mais espessas de um lado
- Cistos miometriais pequenos, geralmente de 1 a 7 milímetros, dentro da parede muscular
- Estrias subendometriais, linhas que partem do endométrio em direção ao miométrio
- Perda da definição da zona juncional, a camada de transição entre endométrio e miométrio
- Sombra em "leque", um padrão de sombreamento característico causado pela distribuição irregular do tecido
Esse conjunto de achados segue critérios internacionais padronizados de ultrassonografia (o consenso MUSA, sigla em inglês para avaliação morfológica uterina por ultrassom), o que permite um laudo objetivo e reprodutível.
Adenomiose e mioma podem coexistir?
Sim, e essa é uma das situações mais desafiadoras para o diagnóstico. É comum que uma mulher tenha miomas e adenomiose ao mesmo tempo, já que ambas as condições têm maior prevalência na mesma faixa etária e compartilham sensibilidade aos hormônios femininos. Um ultrassom detalhado, com avaliação sistemática de cada estrutura, é o que permite separar o que é nódulo miomatoso do que é espessamento adenomiótico, informação que muda diretamente a conduta do ginecologista.
Adenomiose e endometriose podem coexistir?
Também sim. Como as duas condições envolvem tecido semelhante ao endométrio, ainda que em localizações diferentes, uma parcela significativa das pacientes com endometriose profunda também apresenta adenomiose. Por isso, quando há suspeita de endometriose, a avaliação do miométrio faz parte do protocolo. Nesses casos, o ultrassom com preparo intestinal permite investigar as duas condições na mesma consulta, com preparo específico para avaliar também o compartimento posterior da pelve.
Um ultrassom pélvico de rotina, sem protocolo dirigido, pode não identificar adenomiose leve. Por isso, quando a suspeita clínica é forte e o primeiro exame vem "normal", vale conversar com o médico assistente sobre repetir a avaliação com um especialista em ultrassonografia ginecológica avançada.
Adenomiose tem cura? Quais são os tratamentos?
A adenomiose não tem cura definitiva fora da remoção cirúrgica do útero (histerectomia), mas a grande maioria das mulheres consegue controle satisfatório dos sintomas sem chegar a esse ponto. A escolha do tratamento é sempre do médico ginecologista e costuma considerar a idade, a extensão da doença e o desejo de engravidar. As opções mais utilizadas incluem:
- Tratamento hormonal: DIU de progesterona, pílula anticoncepcional ou análogos de GnRH, que reduzem o sangramento e a dor
- Anti-inflamatórios para controle da dor durante o período menstrual
- Procedimentos minimamente invasivos, como a embolização das artérias uterinas, indicados em casos selecionados
- Histerectomia, reservada para casos graves, sem desejo reprodutivo e refratários a outros tratamentos
O acompanhamento por ultrassom tem papel importante mesmo depois do início do tratamento, permitindo observar a resposta e o comportamento do útero ao longo do tempo.
Quando buscar avaliação por ultrassom?
Considere agendar uma avaliação especializada se você apresentar qualquer combinação dos sinais abaixo:
- Cólica menstrual que vem piorando progressivamente, especialmente após os 35 anos
- Sangramento menstrual muito intenso, com necessidade de trocar o absorvente com frequência incomum
- Sensação de peso ou aumento perceptível do volume abdominal baixo
- Dor pélvica persistente, mesmo fora do período menstrual
- Diagnóstico prévio de mioma ou endometriose, com sintomas que não se explicam totalmente por essas condições
Para uma visão mais ampla sobre quando o exame ginecológico por imagem é indicado de forma geral, veja também O que é o ultrassom pélvico e quando fazê-lo e, se o padrão dos seus sintomas parece acompanhar o ciclo menstrual, o guia Sinais e sintomas que podem indicar endometriose também pode ajudar a organizar as informações antes da consulta.
Perguntas frequentes sobre adenomiose
Adenomiose é a mesma coisa que endometriose?
Não. Na adenomiose, o tecido semelhante ao endométrio cresce dentro da parede muscular do próprio útero. Na endometriose, esse tecido cresce fora do útero, em locais como ovários, peritônio e intestino. As duas condições podem coexistir e causam sintomas parecidos, mas são doenças distintas, diferenciadas pelo ultrassom especializado.
Adenomiose é a mesma coisa que mioma?
Não. O mioma é um tumor benigno formado por células musculares do útero, que cresce como um nódulo bem delimitado. A adenomiose não forma um nódulo isolado: ela se espalha de forma difusa dentro da parede uterina, deixando o útero globalmente aumentado, mas sem um contorno definido como o do mioma.
O ultrassom transvaginal sempre detecta adenomiose?
Na maioria dos casos, sim, quando o exame é realizado por especialista treinado e atento aos critérios específicos da doença. Casos muito iniciais ou discretos podem passar despercebidos em um ultrassom de rotina. Quando a suspeita clínica é alta e o primeiro exame vem normal, uma reavaliação especializada pode ser recomendada.
Adenomiose atrapalha a fertilidade?
Pode, especialmente em casos mais extensos, mas não é a regra. Muitas mulheres com adenomiose engravidam sem dificuldade. Quando há impacto na fertilidade, ele costuma estar relacionado à extensão da doença e a fatores associados, como a coexistência com endometriose. O médico assistente é quem avalia esse risco individualmente.
Adenomiose aumenta o risco de câncer?
Não. A adenomiose é uma condição benigna e não é considerada uma lesão precursora de câncer. Ainda assim, sangramentos fora do padrão sempre merecem investigação médica para descartar outras causas.
Precisa de preparo especial para o ultrassom identificar adenomiose?
Não é necessário um preparo específico para a avaliação do miométrio, diferente do que ocorre na investigação de endometriose profunda. O ultrassom transvaginal convencional, com a bexiga vazia, já permite avaliar a textura e o tamanho do útero. Quando há suspeita associada de endometriose, o médico pode indicar o exame com preparo intestinal para uma avaliação mais completa.
Toda mulher com útero aumentado tem adenomiose?
Não necessariamente. O aumento do útero pode ter várias causas, incluindo mioma, gestação e variações anatômicas individuais. A adenomiose é apenas uma das possibilidades, e a diferenciação depende da avaliação detalhada da textura e do padrão do miométrio ao ultrassom.
Se você reconheceu algum desses sinais ou já tem diagnóstico de mioma ou endometriose e sente que algo ainda não foi totalmente explicado, agende sua avaliação por ultrassonografia ginecológica com a Dra. Ana Clara Campos em Itu/SP. Fale pelo WhatsApp: (11) 91235-4747.

