Dra. Ana Clara Campos

Síndrome dos ovários policísticos (SOP): o que o ultrassom revela

Publicado 10 de junho de 2026 Dra Ana Clara Campos
Saúde da Mulher
Síndrome dos ovários policísticos (SOP): o que o ultrassom revela

A síndrome dos ovários policísticos é a alteração hormonal mais comum em mulheres em idade reprodutiva — afeta entre 8% e 13% desse grupo, segundo a Organização Mundial da Saúde. Apesar disso, o diagnóstico costuma demorar anos, em parte porque a SOP se apresenta de formas muito diferentes de uma mulher para outra.

Uma das principais ferramentas no processo diagnóstico é o ultrassom pélvico. Mas o que exatamente ele consegue revelar? O que significa ter "ovários policísticos" no laudo? E o ultrassom sozinho fecha o diagnóstico?

Neste artigo, a Dra. Ana Clara Campos responde a essas perguntas com clareza, explicando o papel do exame de imagem dentro do contexto maior da investigação da SOP.

O que é a síndrome dos ovários policísticos?

A SOP é uma condição endócrina e metabólica caracterizada por um desequilíbrio hormonal que interfere no funcionamento normal dos ovários. Esse desequilíbrio se manifesta por uma combinação de sinais clínicos, laboratoriais e ultrassonográficos.

Os três pilares diagnósticos, conhecidos como Critérios de Rotterdam, são:

  1. Irregularidade menstrual — ciclos longos (mais de 35 dias), ausência de menstruação (amenorreia) ou ovulação irregular
  2. Hiperandrogenismo — excesso de hormônios masculinos, evidenciado por acne, pelos em locais incomuns (hirsutismo) ou queda de cabelo, e/ou confirmado por exames de sangue
  3. Ovários policísticos ao ultrassom — presença de muitos folículos pequenos nos ovários, com morfologia característica

O diagnóstico de SOP é confirmado quando pelo menos dois desses três critérios estão presentes — e desde que outras causas (como disfunção da tireoide ou hiperprolactinemia) sejam descartadas.

Isso significa que é possível ter SOP sem ovários policísticos ao ultrassom, e também ter ovários com aspecto policístico no exame sem ter a síndrome.

O que o ultrassom avalia nos ovários?

Durante o ultrassom pélvico transvaginal, a especialista avalia os ovários de forma detalhada, observando:

  • Volume ovariano — ovários com volume superior a 10 mL em pelo menos um dos lados podem ser indicativos de SOP
  • Contagem de folículos antrais (CFA) — número de folículos pequenos (2 a 9 mm) presentes em cada ovário
  • Distribuição dos folículos — na SOP, os folículos tendem a se distribuir na periferia do ovário, formando o padrão chamado de "colar de pérolas"
  • Ecotextura do estroma — o tecido central do ovário pode se apresentar mais ecogênico (mais brilhante ao ultrassom) do que o habitual

O que significa "ovários policísticos" no laudo?

Esse é um dos termos mais mal compreendidos em ginecologia. Ao contrário do que o nome sugere, os "cistos" descritos no laudo não são cistos verdadeiros — são folículos. Folículos são estruturas normais dos ovários, presentes em todas as mulheres em idade fértil. O que caracteriza o padrão policístico é o número aumentado desses folículos e sua distribuição específica.

O critério ultrassonográfico atual, conforme as diretrizes internacionais de 2023, considera o padrão policístico quando há 20 ou mais folículos de 2 a 9 mm em pelo menos um dos ovários, ou quando o volume ovariano supera 10 mL — desde que realizado em equipamento de alta resolução.

Por isso, receber um laudo com a descrição "ovários com aspecto policístico" não equivale a ter a síndrome. O diagnóstico de SOP é clínico e depende da avaliação médica completa.

Qual é o melhor momento para fazer o ultrassom na investigação da SOP?

Para a avaliação dos ovários na suspeita de SOP, o ultrassom deve ser realizado:

  • Preferencialmente entre o 3º e o 5º dia do ciclo menstrual (fase folicular inicial), quando os folículos ainda estão pequenos e o padrão é mais fácil de caracterizar
  • Em mulheres com ciclos muito irregulares ou amenorreia, o exame pode ser feito em qualquer momento, mas o médico deve considerar essa variável na interpretação
  • O equipamento utilizado influencia diretamente o resultado — aparelhos de alta resolução permitem contar folículos com muito mais precisão

Mulheres que fazem uso de anticoncepcional hormonal podem ter o padrão folicular suprimido ao ultrassom. O ideal é realizar o exame após pelo menos três meses sem o uso do medicamento, quando clinicamente possível.

Ultrassom e SOP: o que o exame não consegue fazer sozinho

O ultrassom é uma ferramenta essencial, mas não é suficiente para diagnosticar ou excluir a SOP por si só. Ele precisa ser interpretado em conjunto com:

  • Histórico clínico — padrão menstrual, sintomas de hiperandrogenismo, histórico familiar
  • Exames laboratoriais — dosagem de LH, FSH, testosterona total e livre, DHEAS, insulina em jejum, glicemia, prolactina, TSH
  • Avaliação clínica — escore de Ferriman-Gallwey para hirsutismo, presença de acantose nigricante (sinal de resistência à insulina)

A SOP é um diagnóstico de exclusão: antes de confirmá-la, o médico precisa descartar outras condições que podem simular o mesmo quadro, como hipotireoidismo, hiperprolactinemia, hiperplasia adrenal congênita de início tardio e tumores produtores de andrógenos.

SOP, fertilidade e o papel do ultrassom no acompanhamento

A SOP é uma das principais causas de infertilidade por anovulação — situação em que o ovário não libera óvulo. Mulheres com SOP que desejam engravidar frequentemente precisam de acompanhamento especializado do ciclo ovulatório.

Nesse contexto, o ultrassom tem um papel fundamental: o monitoramento folicular seriado acompanha o crescimento dos folículos ao longo do ciclo, identifica se a ovulação ocorreu e orienta o momento ideal para relações ou procedimentos de reprodução assistida.

Na SOP, esse monitoramento é especialmente importante porque o ciclo pode ser imprevisível, e o risco de síndrome de hiperestimulação ovariana (caso a mulher esteja usando medicamentos indutores da ovulação) precisa ser monitorado de perto.

SOP e endometriose: podem coexistir?

Sim. Embora sejam condições diferentes, SOP e endometriose podem ocorrer na mesma paciente. A endometriose é caracterizada pela presença de tecido endometrial fora do útero, frequentemente associada a dor pélvica intensa e dificuldade para engravidar.

O ultrassom transvaginal também tem papel importante na investigação da endometriose, conseguindo identificar endometriomas ovarianos (cistos de endométrio) e lesões profundas. Para entender melhor essa condição, leia: O que é endometriose e por que o diagnóstico demora tanto.

Tabela-resumo: SOP ao ultrassom

Aspecto avaliado Achado sugestivo de SOP
Volume ovariano Maior que 10 mL em pelo menos um ovário
Contagem de folículos antrais 20 ou mais folículos de 2–9 mm em um ovário
Distribuição dos folículos Periférica — padrão "colar de pérolas"
Estroma ovariano Aumentado e mais ecogênico que o normal
Diagnóstico pelo ultrassom isolado Não — exige avaliação clínica e laboratorial

Perguntas frequentes sobre SOP e ultrassom

O ultrassom pode diagnosticar a SOP?

O ultrassom é um dos critérios diagnósticos da SOP, mas não fecha o diagnóstico sozinho. Para confirmar a síndrome, o médico precisa de pelo menos dois dos três Critérios de Rotterdam: irregularidade menstrual, hiperandrogenismo e/ou ovários policísticos ao ultrassom — além de excluir outras causas.

Ter ovários policísticos no laudo significa que tenho SOP?

Não necessariamente. Ovários com aspecto policístico ao ultrassom podem aparecer em mulheres sem nenhum sintoma hormonal e sem a síndrome. O diagnóstico de SOP é clínico e depende da presença de outros critérios além do achado ultrassonográfico.

Em qual dia do ciclo devo fazer o ultrassom para investigar SOP?

O ideal é entre o 3º e o 5º dia do ciclo menstrual, na chamada fase folicular inicial. Nesse período, os folículos estão pequenos e o padrão é mais fácil de identificar. Em mulheres com ciclos muito irregulares, o exame pode ser feito a qualquer momento.

Posso fazer o ultrassom tomando anticoncepcional?

O anticoncepcional hormonal suprime o padrão folicular dos ovários, o que pode falsear o resultado. Para uma avaliação mais precisa, o ideal é aguardar pelo menos três meses após a interrupção do método contraceptivo — sempre com orientação médica.

SOP tem cura?

A SOP não tem cura definitiva, mas é uma condição manejável. Com acompanhamento médico adequado, mudanças no estilo de vida e tratamento individualizado, é possível controlar os sintomas, regularizar o ciclo menstrual, reduzir os riscos metabólicos e, quando desejado, engravidar.

O que é o padrão "colar de pérolas" nos ovários?

É uma descrição ultrassonográfica usada quando os folículos se distribuem na periferia do ovário, formando um arranjo circular que lembra um colar. Esse padrão é característico da SOP, mas não é exclusivo dela.

SOP afeta a fertilidade?

Sim. A SOP é uma das principais causas de infertilidade feminina por anovulação. Mulheres com SOP que desejam engravidar devem procurar acompanhamento especializado. O monitoramento folicular por ultrassom é uma das ferramentas mais importantes nesse processo.

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