A síndrome dos ovários policísticos é a alteração hormonal mais comum em mulheres em idade reprodutiva — afeta entre 8% e 13% desse grupo, segundo a Organização Mundial da Saúde. Apesar disso, o diagnóstico costuma demorar anos, em parte porque a SOP se apresenta de formas muito diferentes de uma mulher para outra.
Uma das principais ferramentas no processo diagnóstico é o ultrassom pélvico. Mas o que exatamente ele consegue revelar? O que significa ter "ovários policísticos" no laudo? E o ultrassom sozinho fecha o diagnóstico?
Neste artigo, a Dra. Ana Clara Campos responde a essas perguntas com clareza, explicando o papel do exame de imagem dentro do contexto maior da investigação da SOP.
O que é a síndrome dos ovários policísticos?
A SOP é uma condição endócrina e metabólica caracterizada por um desequilíbrio hormonal que interfere no funcionamento normal dos ovários. Esse desequilíbrio se manifesta por uma combinação de sinais clínicos, laboratoriais e ultrassonográficos.
Os três pilares diagnósticos, conhecidos como Critérios de Rotterdam, são:
- Irregularidade menstrual — ciclos longos (mais de 35 dias), ausência de menstruação (amenorreia) ou ovulação irregular
- Hiperandrogenismo — excesso de hormônios masculinos, evidenciado por acne, pelos em locais incomuns (hirsutismo) ou queda de cabelo, e/ou confirmado por exames de sangue
- Ovários policísticos ao ultrassom — presença de muitos folículos pequenos nos ovários, com morfologia característica
O diagnóstico de SOP é confirmado quando pelo menos dois desses três critérios estão presentes — e desde que outras causas (como disfunção da tireoide ou hiperprolactinemia) sejam descartadas.
Isso significa que é possível ter SOP sem ovários policísticos ao ultrassom, e também ter ovários com aspecto policístico no exame sem ter a síndrome.
O que o ultrassom avalia nos ovários?
Durante o ultrassom pélvico transvaginal, a especialista avalia os ovários de forma detalhada, observando:
- Volume ovariano — ovários com volume superior a 10 mL em pelo menos um dos lados podem ser indicativos de SOP
- Contagem de folículos antrais (CFA) — número de folículos pequenos (2 a 9 mm) presentes em cada ovário
- Distribuição dos folículos — na SOP, os folículos tendem a se distribuir na periferia do ovário, formando o padrão chamado de "colar de pérolas"
- Ecotextura do estroma — o tecido central do ovário pode se apresentar mais ecogênico (mais brilhante ao ultrassom) do que o habitual
O que significa "ovários policísticos" no laudo?
Esse é um dos termos mais mal compreendidos em ginecologia. Ao contrário do que o nome sugere, os "cistos" descritos no laudo não são cistos verdadeiros — são folículos. Folículos são estruturas normais dos ovários, presentes em todas as mulheres em idade fértil. O que caracteriza o padrão policístico é o número aumentado desses folículos e sua distribuição específica.
O critério ultrassonográfico atual, conforme as diretrizes internacionais de 2023, considera o padrão policístico quando há 20 ou mais folículos de 2 a 9 mm em pelo menos um dos ovários, ou quando o volume ovariano supera 10 mL — desde que realizado em equipamento de alta resolução.
Por isso, receber um laudo com a descrição "ovários com aspecto policístico" não equivale a ter a síndrome. O diagnóstico de SOP é clínico e depende da avaliação médica completa.
Qual é o melhor momento para fazer o ultrassom na investigação da SOP?
Para a avaliação dos ovários na suspeita de SOP, o ultrassom deve ser realizado:
- Preferencialmente entre o 3º e o 5º dia do ciclo menstrual (fase folicular inicial), quando os folículos ainda estão pequenos e o padrão é mais fácil de caracterizar
- Em mulheres com ciclos muito irregulares ou amenorreia, o exame pode ser feito em qualquer momento, mas o médico deve considerar essa variável na interpretação
- O equipamento utilizado influencia diretamente o resultado — aparelhos de alta resolução permitem contar folículos com muito mais precisão
Mulheres que fazem uso de anticoncepcional hormonal podem ter o padrão folicular suprimido ao ultrassom. O ideal é realizar o exame após pelo menos três meses sem o uso do medicamento, quando clinicamente possível.
Ultrassom e SOP: o que o exame não consegue fazer sozinho
O ultrassom é uma ferramenta essencial, mas não é suficiente para diagnosticar ou excluir a SOP por si só. Ele precisa ser interpretado em conjunto com:
- Histórico clínico — padrão menstrual, sintomas de hiperandrogenismo, histórico familiar
- Exames laboratoriais — dosagem de LH, FSH, testosterona total e livre, DHEAS, insulina em jejum, glicemia, prolactina, TSH
- Avaliação clínica — escore de Ferriman-Gallwey para hirsutismo, presença de acantose nigricante (sinal de resistência à insulina)
A SOP é um diagnóstico de exclusão: antes de confirmá-la, o médico precisa descartar outras condições que podem simular o mesmo quadro, como hipotireoidismo, hiperprolactinemia, hiperplasia adrenal congênita de início tardio e tumores produtores de andrógenos.
SOP, fertilidade e o papel do ultrassom no acompanhamento
A SOP é uma das principais causas de infertilidade por anovulação — situação em que o ovário não libera óvulo. Mulheres com SOP que desejam engravidar frequentemente precisam de acompanhamento especializado do ciclo ovulatório.
Nesse contexto, o ultrassom tem um papel fundamental: o monitoramento folicular seriado acompanha o crescimento dos folículos ao longo do ciclo, identifica se a ovulação ocorreu e orienta o momento ideal para relações ou procedimentos de reprodução assistida.
Na SOP, esse monitoramento é especialmente importante porque o ciclo pode ser imprevisível, e o risco de síndrome de hiperestimulação ovariana (caso a mulher esteja usando medicamentos indutores da ovulação) precisa ser monitorado de perto.
SOP e endometriose: podem coexistir?
Sim. Embora sejam condições diferentes, SOP e endometriose podem ocorrer na mesma paciente. A endometriose é caracterizada pela presença de tecido endometrial fora do útero, frequentemente associada a dor pélvica intensa e dificuldade para engravidar.
O ultrassom transvaginal também tem papel importante na investigação da endometriose, conseguindo identificar endometriomas ovarianos (cistos de endométrio) e lesões profundas. Para entender melhor essa condição, leia: O que é endometriose e por que o diagnóstico demora tanto.
Tabela-resumo: SOP ao ultrassom
| Aspecto avaliado | Achado sugestivo de SOP |
|---|---|
| Volume ovariano | Maior que 10 mL em pelo menos um ovário |
| Contagem de folículos antrais | 20 ou mais folículos de 2–9 mm em um ovário |
| Distribuição dos folículos | Periférica — padrão "colar de pérolas" |
| Estroma ovariano | Aumentado e mais ecogênico que o normal |
| Diagnóstico pelo ultrassom isolado | Não — exige avaliação clínica e laboratorial |
Perguntas frequentes sobre SOP e ultrassom
O ultrassom pode diagnosticar a SOP?
O ultrassom é um dos critérios diagnósticos da SOP, mas não fecha o diagnóstico sozinho. Para confirmar a síndrome, o médico precisa de pelo menos dois dos três Critérios de Rotterdam: irregularidade menstrual, hiperandrogenismo e/ou ovários policísticos ao ultrassom — além de excluir outras causas.
Ter ovários policísticos no laudo significa que tenho SOP?
Não necessariamente. Ovários com aspecto policístico ao ultrassom podem aparecer em mulheres sem nenhum sintoma hormonal e sem a síndrome. O diagnóstico de SOP é clínico e depende da presença de outros critérios além do achado ultrassonográfico.
Em qual dia do ciclo devo fazer o ultrassom para investigar SOP?
O ideal é entre o 3º e o 5º dia do ciclo menstrual, na chamada fase folicular inicial. Nesse período, os folículos estão pequenos e o padrão é mais fácil de identificar. Em mulheres com ciclos muito irregulares, o exame pode ser feito a qualquer momento.
Posso fazer o ultrassom tomando anticoncepcional?
O anticoncepcional hormonal suprime o padrão folicular dos ovários, o que pode falsear o resultado. Para uma avaliação mais precisa, o ideal é aguardar pelo menos três meses após a interrupção do método contraceptivo — sempre com orientação médica.
SOP tem cura?
A SOP não tem cura definitiva, mas é uma condição manejável. Com acompanhamento médico adequado, mudanças no estilo de vida e tratamento individualizado, é possível controlar os sintomas, regularizar o ciclo menstrual, reduzir os riscos metabólicos e, quando desejado, engravidar.
O que é o padrão "colar de pérolas" nos ovários?
É uma descrição ultrassonográfica usada quando os folículos se distribuem na periferia do ovário, formando um arranjo circular que lembra um colar. Esse padrão é característico da SOP, mas não é exclusivo dela.
SOP afeta a fertilidade?
Sim. A SOP é uma das principais causas de infertilidade feminina por anovulação. Mulheres com SOP que desejam engravidar devem procurar acompanhamento especializado. O monitoramento folicular por ultrassom é uma das ferramentas mais importantes nesse processo.

