Dra. Ana Clara Campos

Endometriose e fertilidade: o que você precisa saber

Publicado 15 de julho de 2026 Dra Ana Clara Campos
Endometriose
Endometriose e fertilidade: o que você precisa saber

Você já ouviu dizer que "endometriose atrapalha engravidar" e ficou com medo de que isso significasse que nunca poderia ter filhos? Essa é uma das dúvidas mais frequentes — e mais angustiantes — entre as mulheres que recebem o diagnóstico. A boa notícia é que endometriose e infertilidade não são sinônimos: a relação entre as duas é real, mas muito mais nuançada do que parece à primeira vista.

Neste artigo, a Dra. Ana Clara Campos — especialista em ultrassonografia ginecológica com atuação focada em diagnóstico de endometriose — explica como a doença pode interferir na fertilidade, quando é hora de investigar e de que forma o ultrassom especializado ajuda a preservar as chances de gravidez.

Endometriose sempre causa infertilidade?

Não. Esse é o primeiro ponto a esclarecer: a maioria das mulheres com endometriose consegue engravidar, algumas até sem qualquer tratamento. O que se sabe, com base em estudos internacionais, é que a endometriose está presente em 30% a 50% das mulheres com dificuldade para engravidar — o que a torna uma das causas mais relevantes de infertilidade feminina, mas não uma sentença.

O impacto na fertilidade varia enormemente conforme o estágio da doença, a localização dos focos e se há ou não comprometimento das trompas e dos ovários. Por isso, duas mulheres com o mesmo diagnóstico podem ter prognósticos reprodutivos completamente diferentes.

Como a endometriose pode dificultar a gravidez

A doença interfere na fertilidade por mecanismos distintos, que costumam atuar em conjunto:

  • Distorção da anatomia pélvica: aderências e nódulos podem alterar a posição de ovários e trompas, dificultando a captura do óvulo
  • Obstrução tubária: em casos mais avançados, as trompas podem ficar parcial ou totalmente obstruídas
  • Endometriomas ovarianos: cistos de endometriose podem reduzir o volume de tecido ovariano saudável, afetando a reserva de óvulos
  • Inflamação crônica: o ambiente inflamatório na cavidade pélvica pode prejudicar a qualidade do óvulo, a fertilização e a implantação do embrião
  • Alterações hormonais locais: podem interferir na receptividade do endométrio, dificultando a fixação do embrião

É justamente essa combinação de fatores — mecânicos, inflamatórios e hormonais — que explica por que o impacto da endometriose na fertilidade não pode ser medido apenas pela intensidade da dor. Mulheres com dor discreta podem ter comprometimento reprodutivo significativo, e vice-versa.

Reserva ovariana: o que o ultrassom pode mostrar

Um dos principais receios de quem tem endometriose, especialmente com endometriomas, é sobre a reserva ovariana — a quantidade de óvulos disponíveis para uma futura gravidez. O ultrassom transvaginal especializado é uma ferramenta importante nessa avaliação, permitindo:

  • Contagem de folículos antrais: indicador direto usado para estimar a reserva ovariana
  • Medida e características dos endometriomas: tamanho, número e se há sinais de crescimento
  • Avaliação da mobilidade dos ovários e útero: aderências podem "fixar" os órgãos, sinal associado a maior gravidade da doença
  • Rastreio de acometimento tubário indireto: sinais sugestivos de obstrução ou comprometimento das trompas

Vale destacar: a decisão sobre operar ou não um endometrioma antes de tentar engravidar deve ser sempre tomada em conjunto com o ginecologista responsável pelo tratamento, já que a cirurgia pode, em alguns casos, reduzir ainda mais a reserva ovariana. O papel do ultrassom aqui é fornecer informação precisa para embasar essa decisão — nunca substituí-la.

Reserva ovariana baixa não significa impossibilidade de engravidar, e endometrioma pequeno não significa ausência de comprometimento. A avaliação precisa ser individualizada, com exame especializado e acompanhamento médico contínuo.

Quando investigar a fertilidade se você tem endometriose

Se você tem diagnóstico confirmado ou suspeita de endometriose e deseja engravidar, alguns sinais indicam que a investigação não deve esperar:

  • Tentativas de gravidez sem sucesso há mais de 6 meses (se você tem 35 anos ou mais)
  • Tentativas sem sucesso há mais de 12 meses (se você tem menos de 35 anos)
  • Diagnóstico prévio de endometrioma, mesmo pequeno
  • Dor pélvica associada a irregularidade menstrual e desejo de engravidar em curto prazo
  • Histórico de cirurgia pélvica prévia por endometriose

Nesses casos, o ultrassom transvaginal com avaliação especializada de endometriose e de reserva ovariana costuma ser um dos primeiros passos, junto com exames laboratoriais hormonais e avaliação clínica com o ginecologista ou especialista em reprodução humana.

Existe tratamento para quem quer engravidar com endometriose?

Sim. O plano de tratamento nesses casos costuma ser diferente do tratamento voltado apenas ao controle da dor, já que muitas terapias hormonais usadas para aliviar sintomas também impedem a ovulação. A definição da estratégia é sempre feita pela equipe médica responsável, considerando idade, reserva ovariana, extensão da doença e tempo de tentativa, podendo envolver:

  • Acompanhamento da ovulação: para tentativas naturais direcionadas ao período fértil
  • Cirurgia laparoscópica seletiva: em casos específicos de obstrução tubária ou endometriomas volumosos
  • Técnicas de reprodução assistida: como inseminação intrauterina ou fertilização in vitro, especialmente quando há comprometimento tubário ou baixa reserva ovariana
  • Preservação de fertilidade: congelamento de óvulos em casos selecionados, quando há risco de perda progressiva da reserva ovariana

O acompanhamento por ultrassom especializado tem papel relevante em todas essas etapas — desde o diagnóstico inicial até o monitoramento durante tratamentos de reprodução assistida — sempre em conjunto com o especialista em fertilidade responsável pela condução do caso.

Perguntas frequentes sobre endometriose e fertilidade

Toda mulher com endometriose vai ter dificuldade para engravidar?

Não. Muitas mulheres com endometriose engravidam naturalmente e sem intercorrências. O risco de infertilidade aumenta conforme o estágio da doença e o grau de comprometimento anatômico, mas não é uma regra geral.

Quanto tempo devo tentar engravidar antes de procurar ajuda?

Em geral, recomenda-se investigação após 12 meses de tentativas sem sucesso para mulheres com menos de 35 anos, e após 6 meses para mulheres com 35 anos ou mais. Quem já tem diagnóstico de endometriose pode se beneficiar de avaliação ainda mais precoce.

O ultrassom consegue dizer se vou conseguir engravidar?

O ultrassom fornece informações importantes — como reserva ovariana estimada, presença de endometriomas e sinais de aderências — mas não prevê, isoladamente, o sucesso de uma gravidez. Ele é uma peça do diagnóstico, interpretada em conjunto com histórico clínico e outros exames.

Preciso operar a endometriose para conseguir engravidar?

Nem sempre. A decisão cirúrgica depende do tamanho e localização dos focos, da reserva ovariana e do tempo de tentativa. Em muitos casos, técnicas de reprodução assistida são indicadas sem necessidade de cirurgia prévia. Essa avaliação cabe ao ginecologista ou especialista em reprodução responsável pelo tratamento.

Endometriose leve também pode afetar a fertilidade?

Pode. A intensidade da dor nem sempre reflete o impacto reprodutivo da doença. Já foram descritos casos de endometriose mínima com dificuldade significativa para engravidar, por conta de alterações inflamatórias sutis no ambiente pélvico.

Fertilização in vitro é sempre necessária em quem tem endometriose?

Não. A indicação depende do estágio da doença, da reserva ovariana, da permeabilidade das trompas e do tempo de tentativa. Muitas mulheres com endometriose engravidam por meios naturais ou com tratamentos menos complexos.

Se você tem endometriose e está planejando engravidar, uma avaliação especializada pode esclarecer seu cenário individual e orientar os próximos passos. Agende sua avaliação pelo WhatsApp: (11) 91235-4747.